terça-feira, 25 de novembro de 2008

"A pipoca"


Na semana passada li um texto de Rubem Alves: maravilhoso! “A pipoca” é uma bela metáfora da vida! Rubem Alves assim disse: “(...) a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa (...). Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. (...)

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. (...) Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. (...)

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. (...)”

E as pipocas, penso que são aquelas pessoas que se permitiram passar pelo processo de mudança. Às vezes esse processo é doloroso, lento, difícil, pesado... parece que não iremos suportar. Mas o resultado final é gostoso: assim como a pipoca! Passei por isso, por muito tempo... não sei se cheguei a ser piruá...porque eu consegui virar pipoca! O piruá pode virar pipoca? Ahhh!!! Alguém já tentou colocar os piruás no fogo novamente para ver o que acontece? Bom...eu nunca tentei! Mas eu acho que os piruás deveriam ter novas chances!
Só há uma questão, que considero muito importante, dessa metáfora para a nossa vida... o milho só precisa do fogo, ficando passivo na transformação... as pessoas também precisam do fogo, mas também precisam ser ativas diante desta transformação...não adianta só ficar esperando o fogo agir... Texto bacana para refletir... viajei...um suspiro de felicidade: alegria de ser pipoca!

Quem quiser ler o texto na íntegra:
http://www.releituras.com/rubemalves_pipoca.asp

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